quinta-feira, 29 de março de 2007

Ciganos formam grupo de ‘esquecidos’ - 2002

Grupos seminômades não contam com o apoio do poder público e tentam sobreviver sem abrir mão das tradições milenares

Marcelo Bulgarelli

Equipe O DIÁRIO

Negros, mulheres, índios, crianças e adolescentes. Uma infinidade de políticas públicas vem sendo anunciada por órgãos federais, estaduais e municipais, mas pouco ou quase nada tem sido feito para resguardar os direitos e a cultura de povos nômades como ciganos. Eles sequer estão mencionados na Constituição Federal.

E são séculos de discriminação e perseguição a uma cultura milenar. Um dos documentos mais antigos, data de 1050 em Constantinopla. Povo de origem nômade - “o chão é a casa” - boa parte dos ciganos hoje existente no Brasil atribui suas origens ao Egito.

É o caso do grupo acampado no bairro Parque Itaipu, em Maringá. São pelo menos 30 ciganos, a maioria crianças, todos da mesma família. A base desse povo fica em Itabuna, na Bahia. Seminômades, estão há um ano em Maringá onde armaram acampamento em diversos terrenos da periferia da cidade.

No primeiro contato com a reportagem, eles foram muito receptivos. As mulheres estavam em casa, muitas com seus coloridos vestidos. A mesma vaidade podia ser verificada nas meninas. Outras crianças brincavam livremente entre as cinco barracas montadas no local.

Fomos apresentados ao mais velho do grupo, Aurelino Fioso Barreto, 82 anos. Negociante, veio com parte da família para o Sul do país para vender diversas mercadorias. Atualmente a família vende toalhas não artesanais, dos mais diversos padrões.

As barracas chamam a atenção pela rusticidade misturada com objetos modernos como televisão e aparelhos de som. Os utensílios da cozinha permanecem espalhados sobre uma mesa dentro da barraca de Aurelino. A água vem de uma mina existente no terreno.

O grupo garante que vive exclusivamente do comércio. As mulheres não lêem mãos e passam o dia cuidando do acampamento e das crianças. A cartomancia nunca teria sido praticada pela família de Aurelino.

Essas tradições são peculiares de determinadas famílias, mas não representam um fator fundamental para a caracterização de um povo cigano. Outras tradições, porém, são mantidas dentro da família de Aurelino: o casamento de pessoas da mesma etnia, a virgindade da noiva e o uso da língua cigana, o Calon.

A língua é uma das formas de proteção dos grupos, principalmente devido ao contato diário com os gadjés, os não-ciganos. Boa parte dos acampados é formada por católicos, mas Aurelino admite que muitos estão optando por igrejas evangélicas. Sem constrangimentos, ele mostra um cartão da Igreja Universal do Reino de Deus, do “bispo” Macedo. É um fiel.

SEM CHANCES

Marcamos um segundo encontro para o dia seguinte, no mesmo local. O fotógrafo Walter Fer-nandes queria registrar com tranquilidade as famílias, seus pequenos hábitos e as belas crianças. Quando retornamos, porém, o grupo havia mudado de opinião.

Não encontramos Aurelino. Ele parecia estar dormindo em sua barraca. Poucas crianças brincavam no acampamento e três homens jogavam cartas sem se importunar com a nossa presença. “Não haverá reportagem”, disse um deles, sem tirar os olhos do baralho. O jogo parecia ter terminado.

Pediram desculpas, mas o líder do grupo identificado como Athaíde Marques da Cruz, de Curitiba, também teria proibido qualquer tipo de foto. A decisão dele é soberana, sem a possibilidade de qualquer tipo de entendimento. Detalhe: as mulheres não estavam mais no acampamento ou teriam se recolhido para as barracas.

Esse tipo de precaução não é novidade entre os povos acampados. Foram séculos de perseguições. Cláudio Iovano-vitch, ator residente em Cu-ritiba e de origem cigana, confirmou que é comum os grupos se resguardarem pois nem sempre a imprensa os procurou com boas intenções.

GRUPOS

“Cigano” é um termo genérico inventado na Europa do Século XV. Atualmente os ciganos e os ciganólogos costumam distinguir pelo menos três grandes grupos. O primeiro deles são os Rom que falam a língua romani. São divididos em vários subgrupos: Kalderash, Matchu-aia, Lovara, Curara. Os Sinti falam a língua sinto. São encontrados na Alemanha, Itália e França. Por fim, temos os Calon que falam a língua calo. São os “ciganos ibéricos” que formam a maioria das famílias existentes hoje no Brasil.

Os grupos não se diferenciam apenas nos aspectos culturais e linguísticos, mas também pelo lado econômico e social. Maringá sempre deu abrigo a grupos formados por ciganos em mutação que vivem em bairros periféricos da cidade. Eles têm grande influência dos gadjés (não ciganos).

Suas atividades econômicas se baseiam no comércio ambulante e trabalhos temporários. Pobres, arredios, desconfiados. E a fama espalhada só atrapalha e marginaliza ainda mais esses grupos que sobrevivem tendo que abrir mão de suas tradições. E estão numa encruzilhada. Ou se aculturam de vez nas camadas economicamente mais baixas da população ou continuam a viver à margem dessa mesma sociedade.

As características culturais dos grupos também não podem ser generalizadas. Mesmo pobres, as mulheres tem o hábito de se vestirem com saias e vestidos coloridos, com pulseiras e brincos. Os homens não tem roupa típica, ao contrário do que é difundindo em circos e espetáculos semelhantes. Desta forma, são facilmente confundidos com um gadjé. Em suma: aquelas fantasias de ciganas que tanto se vende no Carnaval, não tem qualquer relação com a cultura cigana do Brasil e sequer da Europa.

Uma das características ciganas, como sempre, é o noma-dismo. Mas isso não impede que um cigano possa ter residência fixa, trabalhar e estudar. Hoje, na verdade, boa parte é seminômade, como é o caso do grupo que está em Maringá.

Os historiados classificam cigano como aquele “que se considera membro de um grupo étnico que se auto-identifica como Rom, Sinti ou Calon, ou um de seus inúmeros subgru-pos, e é por ele reconhecido como membro”. Não importam os aspectos físicos, o tamanho do grupo ou se mantém ou não as tradições ciganas.

RELIGIÃO

Sobre o crescimento das igrejas evangélicas no meio dos grupos, vale ressaltar que os ciganos não têm uma religião própria. Boa parte é de origem católica. Com o crescimento do número de ciganos evangélicos, perde-se culturalmente uma das festas religiosas atribuída à etnia, a Slava, homenagem a um santo católico, geralmente cercada de rituais.

Campinas (SP) é a capital dos ciganos no país. Lá existe a sede da Igreja Evangélica Pentecostal Comunidade Cigana cujo objetivo é converter 90% dos cerca de 250 mil ciganos que vivem no Brasil. A cidade abriga mais de 400 famílias.

PRECONCEITOS

Quando se fala em ciganos, as primeiras imagens são daquelas mulheres espalhadas no centro de Maringá, sempre se oferecendo para ler a mãos dos transeuntes. Vestem-se com longos vestidos coloridos e usam colares exuberantes. A quiromancia é tradição milenar que atrai a curiosidade de muitos e que intensifica a perseguição por outros.

A discriminação já fez com que os ciganos carregassem rótulos como ladrões de galinhas, de cavalos e de crianças. O cinema, a literatura e até mesmo as artes plásticas sempre mostraram esse povo de forma preconceituosa.

Os homens realizam trocas. Animais ou objetos são mercadorias que passam de mão em mão. Já as crianças, muitas vezes, estão fora das escolas ou são obrigadas a conviver com a educação dos guadjos nos estabelecimentos públicos de ensino.

No Brasil há quem defende a educação especial para as crianças ciganas, assim como já existe um trabalho semelhante voltado para os índios. Faltará, com certeza, material didático-pedagógico e professores qualificados. Outros educadores, porém, defendem a utilização da escola tradicional como meio de acabar com os preconceitos e discriminações.

Mas é injusto apontar o descaso das autoridades na defesa dos direitos dos ciganos sem lembrar que a bibliografia sobre os povos ciganos é muito escassa no Brasil. Geralmente, ela é formada por ensaios científicos como os realizados pelo antropólogo Paulo Sérgio Adolfo da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Assim, o futuro dessa etnia está com o poder público, nas tendas, nas vestes. Ou enquanto existirem linhas nas palmas de nossas mãos.

Um comentário:

lolaamore disse...

gostei da historia e queria saber mais sobre os calon obrigado